Agricultores siques mantêm tradição de 900 anos na Califórnia

Kerman, Califórnia – Simranjit Singh é um agricultor americano de segunda geração, mas suas raízes agrícolas remontam a 900 anos.

Sarbjit Sran inspeciona as videiras na fazenda de sua família em Kerman, Califórnia, onde cultiva passas e amêndoas, 17 de março de 2021. (Ryan Christopher Jones/The New York Times)© Distributed by The New York Times Licensing Group Sarbjit Sran inspeciona as videiras na fazenda de sua família em Kerman, Califórnia, onde cultiva passas e amêndoas, 17 de março de 2021. (Ryan Christopher Jones/The New York Times)

Antes que seu pai se mudasse da Índia para a Califórnia, em 1991, antes que a Índia se tornasse independente do Reino Unido, em 1947, e antes mesmo que a cultura sique se estabelecesse em 1469, as civilizações do norte da Índia já trabalhavam em diversas terras agrícolas. Singh, de 28 anos, faz parte dessa linhagem ininterrupta.

Em uma fazenda de 40,5 hectares isolada no Vale de San Joaquin, na Califórnia, ele e o pai cuidam dos pomares de uva-passa e das amendoeiras da família, determinados a manter sua herança vital. “Tudo que me foi passado por meu pai é tão valioso que eu seria um tolo se jogasse fora. A agricultura vai estar sempre no centro de quem sou”, disse ele.

Ao longo do século passado, trabalhadores provenientes de diásporas étnicas de todo o mundo cultivaram esses campos, à medida que pessoas da Armênia, do México, do Sudeste Asiático, da China e de muitos outros lugares construíram vida e família, enraizadas no solo fértil da Califórnia. Essa é uma região cuja economia e força vital são definidas pela terra e pelas pessoas que a trabalham. Os siques do Punjab estão entre os migrantes mais recentes que tentaram a sorte.

Sarbjit Sran inspeciona as árvores na fazenda de sua família em Kerman, Califórnia, onde cultiva passas e amêndoas, 17 de março de 2021. (Ryan Christopher Jones/The New York Times)© Distributed by The New York Times Licensing Group Sarbjit Sran inspeciona as árvores na fazenda de sua família em Kerman, Califórnia, onde cultiva passas e amêndoas, 17 de março de 2021. (Ryan Christopher Jones/The New York Times)

A fazenda Sran, onde Singh trabalha com o pai, Sarbjit Sran, é uma empresa em tempo integral com apenas dois homens por trás da maioria das operações do dia a dia. A mãe de Singh, Jaswinder Sran, de 55 anos, às vezes se junta a eles no campo. Só durante a colheita do fim do verão é que a família contrata trabalhadores temporários.

Singh e outros agricultores siques mais jovens da região são um grupo cada vez menor. A mobilidade econômica empurrou as gerações mais novas para ocupações tradicionalmente urbanas, ainda que os agricultores restantes sintam que devem continuar. “Nessa região, agora temos menos trabalhadores vindos do Punjab, em comparação com os anos 80 e 90, porque os filhos estão seguindo uma carreira profissional”, explicou Simon Sihota, importante fazendeiro sique da região.

Como a fazenda Sran, os negócios de Sihota continuam sendo principalmente um assunto de família. Seu filho Arvin, de 22 anos, acabou de se formar em gestão agrícola na Universidade Politécnica do Estado da Califórnia, e seu filho mais velho, Kavin, de 24 anos, é formado pela Universidade Cornell em enologia, a ciência da produção de vinho. Sua filha Jasleen, de 20 anos, ajuda regularmente nas tarefas administrativas dos negócios da família.

A família trabalha em conjunto da mesma forma que Sihota ajudou o pai e o avô no campo quando era jovem. Vindo da Índia, seu pai chegou à Califórnia em 1961 e acabou economizando dinheiro suficiente para comprar 16 hectares; a fazenda cresceu desde então e hoje tem 1.214 hectares de amêndoa, pistache, uvas para vinho e pêssego. “Não consigo me imaginar fazendo outra coisa. Quando eu estava na Costa Leste, sempre sentia falta do estilo de vida agrícola”, disse Kavin Sihota.

Embora jovens agricultores siques como Kavin Sihota e Simranjit Singh sejam cada vez menos comuns nesta parte do mundo, seus colegas encontraram maneiras diferentes de se envolver com a tradição da agricultura indiana e com sua comunidade sique de forma mais ampla.

Desde setembro de 2020, os agricultores da Índia protestam contra novas leis agrícolas que podem causar grandes prejuízos para os pequenos agricultores do país, limitando a renda que suas terras podem gerar. As novas regras minimizam o papel do governo na agricultura e eliminam as proteções estatais, que podem deixar os agricultores à mercê do livre mercado.

Quando a notícia dos protestos chegou aos Estados Unidos, jovens siques americanos mostraram seu apoio nas redes sociais e em manifestações locais.

Anureet Kaur, de 16 anos, estudante do segundo ano do ensino médio em Selma, na Califórnia, postou com tanta frequência sobre as manifestações de agricultores indianos que sua conta no Instagram, com quase 6.500 seguidores, foi temporariamente restringida. “Vou continuar a levantar minha voz em favor dos agricultores. Afinal, também sou filha de agricultor”, afirmou ela.

Em Madera, Sohan Samran mostrou apoio de uma forma mais tangível. O proprietário da Bapu Almond Co. despachou amêndoas diretamente para os manifestantes na Índia.

Em punjabi, “bapu” é um termo carinhoso para um parente mais velho do sexo masculino, e o nome da empresa é uma forma de homenagear a tradição agrícola de sua família e sua cultura. Nas fazendas da Bapu, a palavra está estampada em todos os lugares, nas pilhas de contêineres de amêndoa, nos equipamentos agrícolas e nas marcas da empresa. A palavra é um lembrete constante de que, para muitos siques no mundo agrícola, família e agricultura andam de mãos dadas.

Em uma tarde quente de domingo em Kerman, Singh e Sran relaxavam em casa depois de terem trabalhado no campo. Sentado sob a pintura de um antigo gurdwara, o local de culto dos siques, Singh apontou para o pai e disse com um sorriso: “Este é meu bapu, bem aqui.”

Um dos princípios básicos do siquismo é o seva, o princípio de que a bondade, a humildade e o ato de servir o próximo tornam a vida honrada.

Para Singh e seu pai, sua história geracional de agricultura familiar é uma parte ativa do seva, e eles acreditam que cultivar safras, cuidar da terra e fornecer alimentos para a comunidade são atos de serviço ao próximo. “Meu trabalho como agricultor é mais do que um trabalho. Sinto que é um dever, e estou apenas tentando fazer o máximo de seva que posso no tempo limitado que tenho aqui neste planeta”, afirmou Singh.

*The New York Times Company

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